No vocal, Jim Connelly (36 anos). No baixo e fazendo backing vocal, Graham Spragg (28). Na guitarra elétrica e fazendo backing vocal, Jack Beaven Duggan (22). Na bateria e backing vocal, Saul Zur-Szpiro (24). Complementando o set, John Duggan, pai de Jack, na guitarra elétrica, e Michael Zur Szpiro, pai de Saul, na harmônica.

Essa é a composição de uma banda de rock inglesa com uma composição pra lá de especial. Isso porque a The AutistiX tem nada mais, nada menos, do que três integrantes que fazem parte do espectro autista: Graham, Jack e Saul.

The AutistiX é a prova de porque o espectro autista é exatamente isso: um grande espectro. Contrariando a resistência que muitas pessoas com TEA possuem aos sons e músicas mais agitadas, os meninos que compõem a banda são justamente o contrário: amantes de música, de música alta, e de rock.

Diferente do que se pode pensar, não se trata de “suportar” o som, segundo Susan Zur Szpiro, empresária da banda e mãe de Saul. “A música ajuda Saul a ser incluído socialmente e as pessoas que o escutam tocar sempre ficam encantadas por suas habilidades, paixão, alegria e conforto. Se ele estiver sentado na bateria, as pessoas nem sempre percebem que ele tem condições severas. Ele ajuda a transformar o preconceito e ignorância das pessoas sobre o talento e potencial de músicos com algum tipo de condição ou deficiência”.

No caso do The AutistiX, a integração começa já com os próprios membros da banda. Até a composição das músicas é um processo colaborativo. “Jack é quem com frequência introduz uma nova música com uma letra e até mesmo uma melodia base. Recentemente, fomos comissionados para escrever uma música para alguém que está desenvolvendo um relógio especial para as pessoas com autismo se tornarem mais independentes e não precisarem de outros para levá-las a fazer coisas e com recompensas incorporadas para mais independência, por exemplo, música”, contam os integrantes.

The Autistix2

E não tem folga: a regularidade dos ensaios é intensa, especialmente quando um show se aproxima. “Nós trabalhamos duro, porque queremos que os shows sejam o melhor que puderem. A parte mais difícil é gerencial a animação do Saul, que o afeta fisicamente. Por exemplo, ele não consegue dormir na noite antes do ensaio”, relata Michael.

Para Graham, no entanto, os desafios não são nem maiores, nem menores do que quem não possui autismo. “É tão desafiador quanto as pessoas acreditam que deve ser”, diz. Para ele e para Jack, a parte mais difícil é a comunicação dos próprios membros da banda durante um ensaio. “Quando alguém diz algo, você pode estar com raiva dessa pessoa, eu posso sentir algum ódio. Se você não achar útil quando alguém diz algo, ele se sente com raiva. Isto é, em geral, bem como na banda”, conta.

Mas todo o trabalho compensa quando eles recebem o carinho da plateia. “Eu gosto de falar com os fãs depois do show. Não é bem um “relacionamento com os fãs”, mas é legal falar com eles!”, diz Graham. Jack e Saul também adoram a interação com a audiência. “Saul se alimenta da energia do público”, conta Susan.

Quem são os integrantes?

Jim, John e Michael, que são Neurotípicos, atuam na banda e possuem também suas histórias com a música antes e depois de participar dos The AutistiX. No entanto, para falar um pouquinho sobre neurodiversidade, vamos conhecer Graham, Jack e Saul? Confira suas histórias abaixo!

GRAHAM

A primeira vez que Graham segurou uma guitarra na mão foi aos oito ou nove anos, mas ele não sentia autoconfiança o suficiente para tocar. “Mas ficava batucando nos bancos da igreja como se estivesse tocando bateria. Aí descobri que alguém na escola já tocava bateria, então aprendi a tocar guitarra mesmo”. Graham ama a música e diz que ela lhe dá energia quando está se apresentando. “Eu preciso de música para viver, eu nasci para entreter!”, disse Graham ao Super Spectro.

Diagnosticado com Asperger, Graham terminou a universidade – e viveu de maneira independente durante o período de curso -, e agora também conseguiu um trabalho, depois de buscar por algum tempo e vencer os preconceitos.

JACK

Com Jack, o contato com a música veio entre os 13 e os 14 anos. “Meu pai disse que ele tinha sido integrante de uma banca por um longo tempo, então eu também quis fazer parte de uma”, conta, em relação ao pai, John, que também faz parte da banda, e que toca bateria desde os nove anos. “A música me faz sentir bem quando estou tocando, especialmente no palco. Às vezes tenho algo me incomodando e eu sinto que posso transformar em música o que está em minha mente, sobre como eu estou me sentindo nesse momento. Eu me sinto bem ouvindo música, assim como meu pai. Isso me coloca em um lugar feliz em minha mente”.

Além da banda, Jack, que tem Transtorno do Espectro Autista, também está na universidade, estudando para ser cabeleireiro. Ele é bastante independente e pode se deslocar sozinho, mas se orgulha de ter um grande grupo de amigos e uma família que o acompanha bastante.

SAUL

Saul também se interessa por música desde criança, mas por muito tempo não pôde tocar nenhum instrumento, pois possui uma deficiência visual leve. Por conta disso, ele precisou desenvolver melhor as habilidades auditivas, o que o ajudou muito na música. “Tocava percussão em grupos para crianças e fiz um programa de educação em casa em que incorporamos alguns objetivos envolvendo música e terapia fonoaudiológica através da música, da dança, coordenação entre olho e mão através do piano e habilidades motoras e visão pela percussão”, lembra Saul.

Quando tinha dez anos, ele foi colocado na bateria por um dos professores de guitarra das irmãs dele, e foi um momento completamente transformador. Ele mal conseguir segurar os bastões ou alcançar os pedais, mas ele estava tão feliz que nós soubemos na hora que tínhamos que ajudá-lo com isso”, conta Susan, mãe de Saul. Eles tiveram a ideia de prender os bastões com velcro e construíram um pedal mais alto para que ele conseguisse alcançar. A partir daí, Saul se desenvolveu muito.

Música é a minha vida. Eu me alimento, dela, durmo, acordo com ela e tenho música em cada célula do meu corpo. Eu adoro quase todos os gêneros – de rock a soul, country, folk, religiosa, opera, musicais... tudo, exceto eletrônica e alguns tipos de jazz que podem afetar minha audição, que é sensível”.

A música também ajuda Saul a se comunicar, já que suas habilidades verbais são limitadas. “Seu entendimento é muito mais avançado do que sua comunicação verbal. Saul usa o sistema Makaton de sinais para apontar ou mostrar uma palavra ou sentença, entre outros recursos”.

A origem da banda

Segundo Susan Zur Szpiro, mãe de Saul e empresária da banda, tudo começou quando uma autoridade local pediu que Saul fosse envolvido em uma das atividades de contraturno da escola.  “Eu disse que só funcionaria se houvesse música envolvida”, conta.

A banda então foi sendo formada a partir de um grupo musical que foi criado por uma associação na localidade de Camden, em Londres. O grupo só reunia semanalmente e os integrantes começaram a criar laços enquanto tocavam sons conhecidos de bandas como Os Beatles, Coldplay, Oasis e outras. “Não demorou muito para que eles começassem a criar suas próprias músicas. E então a banda fez sua primeira apresentação pública na festa de aniversário de 18 anos de Saul”.

TheAutistix

Nos anos que se seguiram, The AutistiX seguiu se apresentando em festivais locais e chegou a fazer um tour na Espanha, para se apresentar no País Basco em parceria com uma banda que incluía músicos com Síndrome de Down. “Foi incrível! Reportagens foram publicadas sobre nossa banca única e sobre nossa visita à Espanha. Fomos parar no site da BBC, que é a principal emissora de TV e notícias do país”, contam os integrantes.

Desde então, a banda passou por algumas alterações até chegar à formação atual, e já tocou em  mais de 50 festivais de todos os tipos – pubs locais, festivais de verão, eventos de caridade, apresentações em escolas e universidade, entre outros. “Um festival muito especial para a gente é o festival anual dos Beatles, com 120 bandas. Somos a única com integrantes especiais!”

Acesse a fanpage do The AutistiX para conhecer a banda e ouvir alguns de seus sucessos!

Comentários